Escola Paulo VI: um marco histórico na educação de Mangabeira

Por Paulo Sergio de Carvalho 21/02/2026 - 11:42 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE/ARQUIVO PESSOAL NM
Escola Paulo VI: um marco histórico na educação de Mangabeira
Escola Paulo VI: um marco histórico na educação de Mangabeira

Não se pode falar da educação em Mangabeira, distrito de Lavras da Mangabeira, sem mencionar a figura visionária do professor João Bosco Vieira. Foi ele o grande idealizador e articulador da transformação que mudaria para sempre o cenário educacional da comunidade: a fundação da Escola de 1º Grau Paulo VI.


João Bosco Vieira

A ideia que nasceu pelo rádio

Em meados da década de 1970, mais precisamente em 1975, João Bosco — fã de rádio e atento ao noticiário diário — tomou conhecimento de que o Governo do Estado do Ceará, então comandado pelo coronel Adauto Bezerra, iria transformar as chamadas “escolas reunidas” e grupos escolares em Escolas de 1º Grau.

Em Mangabeira, as escolas reunidas contavam apenas com três professoras — Socorro Mangueira (cunhada de João Bosco), Glorinha Duarte e Maria Luiza Oliveira — que atendiam alunos até a quarta série. A limitação estrutural impedia a continuidade dos estudos na própria comunidade. Foi nesse contexto que nasceu o sonho de ampliar o acesso à educação local.

Articulação política e compromisso coletivo

Determinado, João Bosco elaborou quatro cartas estratégicas: uma para seu pai, Doquinha dos Torrões; outra para Zeca Duarte, chefe político local; uma para Derinha Mangueira, seu sogro e também liderança política; e uma para o influente Dr. João Gonçalves de Sousa, filho ilustre de Mangabeira e uma das personalidades de maior projeção nacional à época.

Todos responderam positivamente, assumindo o compromisso de apoiar a transformação.

Entretanto, havia uma pendência junto ao Ministério da Educação relacionada ao Ginásio São José de Mangabeira, mantido pela Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CENEC). Atendendo a pedido de Dr. João Gonçalves, João Bosco deslocou-se a Juazeiro do Norte para regularizar a prestação de contas, organizando documentação financeira, folhas de pagamento, notas fiscais e recibos, deixando a situação plenamente regularizada.

O projeto ganha forma

Com a pendência resolvida, João Bosco iniciou a elaboração do projeto de criação da nova escola, deslocando-se diversas vezes de Fortaleza — onde residia — até Mangabeira.

O projeto precisava ser apresentado por um deputado estadual. A causa foi abraçada pelo então deputado Acilon Gonçalves, da vizinha Aurora, votado à época em Lavras da Mangabeira. Após os trâmites legais, o projeto foi aprovado, oficializando a criação da Escola de 1º Grau de Mangabeira.

O nome Paulo VI e a estruturação


O nome “Paulo VI” foi escolhido por João Bosco em reunião com as lideranças políticas locais e mais algumas pessoas próximas em homenagem à tradição religiosa do distrito e ao sumo pontífice Papa Paulo VI. Tratava-se de um nome neutro, que unia fé e consenso, evitando possíveis disputas por homenagens pessoais.

O quadro funcional foi definido após reuniões comunitárias. Além das três professoras das escolas reunidas, foi contratada Lídia Mangueira, cunhada de João Bosco, e outras 20 pessoas indicadas por lideranças locais.


João Bosco e sua esposa, Nenenzinha Mangueira, tornaram-se diretores fundadores. Também integraram o corpo docente Paulinho Batista e Fátima Lemos, que deixaram Fortaleza para residir em Mangabeira, fortalecendo o projeto educacional.

Organização inédita e impacto social

No livro Professor João Bosco Vieira – Uma vida dedicada à educação, de autoria de Nenenzinha Mangueira, são relatados fatos marcantes, como a criação de um arquivo escolar organizado — algo inexistente até então.

Para regularizar a documentação dos alunos, muitos casais precisaram oficializar o casamento civil no cartório local para garantir as certidões de nascimento dos filhos. O então jovem político Chico Aristides custeou as despesas cartoriais e forneceu fardamento completo aos estudantes, demonstrando o envolvimento coletivo na causa educacional.

Posse histórica e início das aulas


No início de 1976, em solenidade marcada por grande participação popular, João Bosco e Nenenzinha tomaram posse como diretores fundadores.


O evento contou com a presença de diversas autoridades e lideranças regionais, simbolizando o reconhecimento oficial do novo capítulo educacional de Mangabeira.

As aulas tiveram início em fevereiro daquele ano.

Crescimento, inovação e protagonismo

A Escola Paulo VI cresceu ano após ano, implementando inovações pedagógicas, promovendo festas comemorativas, reuniões de pais e mestres e atividades recreativas que integravam a comunidade.


Uma das iniciativas mais marcantes foi a participação no desfile cívico de 7 de Setembro realizado em Mangabeira. Para viabilizar a banda marcial, foi promovida uma disputa para escolha da “Rainha do Colégio”, arrecadando recursos para compra de instrumentos musicais.


João Bosco trouxe da capital cearense seu ex-aluno Haroldo Mesquita para treinar os integrantes da banda. No mesmo ano, a escola desfilou pelas ruas, encantando o público e consolidando sua presença no cenário educacional da região.


Um legado que permanece

A criação da Escola Paulo VI não foi apenas um ato administrativo, mas um movimento de transformação social. João Bosco Vieira deixou um legado educacional profundo em Mangabeira — fruto de visão, coragem, articulação política e compromisso comunitário.

Um feito histórico que permanece vivo na memória e na formação de gerações.