“Mercadores de votos”: quando o voto vira mercadoria, a representatividade perde força
As eleições deveriam ser o
momento em que o cidadão exerce uma das maiores expressões da democracia: escolher livremente quem irá representá-lo.
Mas, em muitos municípios,
o período eleitoral também revela uma prática que há décadas faz parte do
debate político brasileiro: a atuação dos chamados “mercadores de votos”.
São pessoas que,
principalmente durante as campanhas, passam a atuar como intermediárias entre
candidatos e eleitores, utilizando relações familiares, amizades, influência
comunitária e contatos pessoais para apresentar determinados nomes ao
eleitorado.
O fenômeno ganha ainda mais
força em cidades pequenas, onde praticamente todos se conhecem e os vínculos
familiares continuam tendo grande peso nas decisões políticas.
O problema começa quando a
escolha eleitoral deixa de ser tratada como uma decisão política e passa a ser
encarada como uma espécie de negociação.
Em vez de discutir propostas, trajetória, atuação parlamentar e compromissos com o município, o debate pode acabar reduzido a uma pergunta:
“O que eu ganho se votar nesse candidato?”
Quando isso acontece, o
voto deixa de ser analisado exclusivamente pelo interesse coletivo e passa a
ser influenciado por relações particulares.
É justamente esse tipo de
comportamento que alimenta o debate sobre o chamado clientelismo eleitoral.
Existe ainda uma situação
recorrente em diversos municípios: pessoas que passaram a morar em outras
cidades, mas retornam à terra natal durante o período eleitoral.
Conhecem famílias, possuem
parentes, amigos e antigos vínculos comunitários. Durante a campanha, essas
relações podem ser utilizadas para mobilizar votos em favor de determinados
candidatos.
Não há nada de irregular em
um cidadão apoiar e pedir votos para seu candidato.
O problema surge quando o
voto é tratado como objeto
de negociação, especialmente se houver promessa de vantagem
pessoal ou qualquer outra forma de compra de votos.
Nesses casos, não se trata apenas de uma questão política: pode existir uma infração eleitoral, que deve ser comprovada e encaminhada à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público.
E QUEM PERDE COM ISSO?
Quando o voto é
transformado em mercadoria, quem pode acabar perdendo é o próprio município.
O candidato eleito passa a
ser cobrado menos pela sua capacidade de representar a população e mais pelos
compromissos particulares estabelecidos durante a campanha.
E isso gera uma pergunta
fundamental: Quem representa a população: o eleitor ou aquele que conseguiu
mobilizar mais votos por meio de relações pessoais?
A democracia representativa
depende de escolhas livres e conscientes.
Quanto mais o voto estiver vinculado a interesses individuais e menos a projetos coletivos, maior será o risco de enfraquecimento da relação entre eleitor e representante.
O “PREÇO” DO VOTO PODE SER COBRADO DURANTE QUATRO ANOS
Uma reflexão precisa ser
feita depois de cada eleição.
· O candidato recebeu o voto. Foi eleito. E depois?
·
Vai voltar ao município?
·
Vai ouvir as comunidades?
·
Vai apresentar emendas?
· Vai defender recursos para saúde, educação,
infraestrutura e agricultura? Vai acompanhar as demandas locais?
Ou desaparecerá até a
próxima eleição? Esse é o ponto central.
O voto pode durar apenas alguns segundos na urna,
mas o mandato dura quatro anos.
Por isso, a cobrança
precisa começar justamente quando termina a campanha.
Criticar os chamados
“mercadores de votos” não significa retirar do eleitor sua responsabilidade. Cada
cidadão possui liberdade para escolher seus candidatos.
Mas também possui o direito — e o interesse — de conhecer a trajetória daqueles que pretendem representá-lo.
Quem é o candidato? O que
já fez? O que pretende fazer? Qual sua relação com o município? Quais recursos
já destinou? Quais compromissos assumiu publicamente?
Essas perguntas são muito mais importantes do que qualquer promessa feita nos bastidores de uma campanha.
DEMOCRACIA NÃO É NEGÓCIO
A eleição passa. Os cabos
eleitorais vão embora. Os candidatos retornam às suas bases. Mas a população
permanece.
E é ela que continuará
enfrentando os problemas do município durante os quatro anos seguintes.
Por isso, o debate sobre os
“mercadores de votos”
precisa ser ampliado. Não se trata apenas de apontar culpados.
Trata-se de discutir que
tipo de representação política a sociedade deseja construir. Voto não é
mercadoria. Voto é instrumento de cidadania.
E quanto mais o eleitor compreender a força que possui diante da urna, menor será o espaço para aqueles que tentam transformar relações pessoais e necessidades individuais em moeda eleitoral.

Paulo Sergio de Carvalho - Meu Pai, Meu Herói — Sérgio Carvalho, um amor que a eternidade não apaga